Live and let Die: ode à morte de George Henry Martin, o pai da beatlemania, o quinto Beatle

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A década era a de 60. Os Beatles, no final das tantas contas, eram John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. E George de novo. O outro George. Sir. George Martin.

O contexto fazia-se nas reminiscências das Grandes Guerras, no rompimento com o repressor anos 50, nas alucinadas experiências com as drogas e na corajosa liberdade sexual. Era o tempo da juventude, da sede, do renascimento. Foi a era dos genuínos hippies, dos determinados movimentos pacifistas e da fervilhante luta pelos direitos civis. No Brasil, Brasília era inaugurada, Jango assumia como Presidente (olá, Parlamentarismo), Elis Regina lançava seu primeiro 78 rotações, o país comemorava o bicampeonato de futebol no Chile e Roberto Carlos lançava seu primeiro álbum de rock, Susie.

Mas hoje é dele. Sem política, sem esporte, sem notícia. É de George Henry Martin e de seus líricos sinônimos. E já vou avisando: hoje, é pessoal. É emoção, história e agradecimento. Não haverá um resquício sequer de imparcialidade. Daqui em diante, eu sou toda coração, como se deve ser. E eu jogo assumida e eternamente no time deles, dos revolucionários, visionários e idealizados “The Boys”.

Quando eu me fazia pequenina, quando eu e meu irmão ainda éramos colo, choro e desamparo – e um invisível e cantarolado sonho -, meus espirituosos pais ninavam a vida e o sono com I Have Should Known You Better, My love e If I fell. Eu e meu irmão nunca ouvimos uma canção de ninar. Eu e meu irmão ouvíamos Beatles. Se não fosse a genialidade produtora de Martin, eu, possivelmente, assim ou assado, não teria crescido errando todas as letras desses rapazes num convicto inglês neológico, chorado, anos a fio, nos árduos desamores da adolescência, ao ouvir Eleanor Rigby e muito menos entendido Live and Let Die à certa altura da existência. Se não fosse pela sabedoria de Martin, Yesterday não teria sido minha primeira – e única – honra beatlemaníaca em meus dias de teclado. Minha família não seria composta por músicos amadores – embora mestres e doutores em paixão, em cais de porto. Em família -. Com quantas baladas se faz, afinal, um lar eternamente enlaçado pela arte da música? O meu só precisou de uma. O meu tem trilha sonora. O nosso devoto amor tem trilha sonora. A nossa loucura toda tem nome. As nossas longas e apertadas horas de estrada no banco de trás continuam a exigir Love me Do… E minha mãe ainda chora toda vez que lembra do Paul dela (ela mantinha – e ainda mantém – um santuário dedicado a ele guardado em alguma gaveta da juventude). Meu pai ainda engole seco o ciúmes dele. E sabe que a luta é inútil, porque ele também se rendeu. Ele também se rendeu ao Paul. E porque a Linda era linda.

Minha mãe chorou hoje. Ela chorou hoje logo ao acordar, vestindo um pijama quente e nostálgico, fitando o fervido café de cada manhã, ela chorou hoje. Ela sentiu o mesmo que eu com a notícia da morte de Martin: a desgraçada força do tempo. A perversão das idas. A perfeição dos legados. A gente se entreolhou e palpitou o mesmo pesar nos rostos carregados: estão todos indo. Todos estão indo. As persofinicações da gente estão indo, os heróis da gente estão sumindo. E o que fica, meu Deus? Depois de tudo, depois de todos, o que diabos fica? Quem é capaz de sustentar uma vida? Eu a encarei e entendi que não se tratava mais do George em si. A dor fez-se subjetiva. Órfã. Quando ela tinha 13 anos, ela disse, embargando a voz e desentupindo o nariz, esperava inquieta e esperançosamente, em meio ao nada nordestino em que orgulhosamente nasceu e criou-se, pelos jornais, pelas revistas, por qualquer resquício de sonho. Ela guardou todos os resquícios de sonho. E, agora, eles estão tornando-se a ir, como se ela entendesse que, inevitavelmente, vai também. Eu chorei pelas pequenas mortes que dançam a morte da vida.

Meu pai sorriu. Meu pai é desses caras que sorri. Eu congelei em devaneios com a cara franzida, esquecendo-me de piscar, sentindo, mais do que nunca, o símbolo que George Henry Martin carrega. Ele carrega mais, muito mais, do que o impecável título de infinito produtor, à época, do selo Parlophone, da EMI, dos Beatles. Por mais honrável que isso seja, ele carrega, também, famílias. A transcendência das famílias. Da minha. Ele carrega o que fica. Ele fez a gente ficar. Ele carregou toda uma gente às lágrimas hoje, como se cada gente perdesse um pedacinho da vida que ele reinou ao deixar.

Eu não conheci os Beatles. Não conheci, sobretudo, o quinto Beatle. Eu não nasci na década de 60, mas sou filha dela. Sou filha de todas elas. Sou filha de todos eles. E eles, sim, conhecem-me – como no enganado dia em que eu acreditei que o faria -.

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Sobre o Autor

Filha dos anos 90, estudante e amante de Psicologia, sangue e calor paraibanos. Socorro-me da alma pra (sobre)viver. Por isso escrevo. Por isso meus tantos eus e cás comigo...

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