Cartel Land: o documentário que também merece destaque

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Os documentários ganham cada vez mais espaço no meio do cinema. A cada ano que se passa, surgem melhores, com uma produção mais bem feita e histórias emocionantes. Foi o caso do vencedor da noite de ontem. O documentário “Amy”, do cineasta Asif Kapadia – mostrando os bastidores da ascensão e decadência da cantora inglesa, culminando com sua morte aos 27 anos – levou o troféu de melhor documentário no Oscar 2016.

Apesar de levar a estatueta com muito mérito, outro indicado que deixou sua marca com uma bela produção foi Cartel Land, presente no Festival do Rio, em outubro do ano passado.

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Esta coprodução entre Estados Unidos e México aborda um tema sensível: o tráfico de drogas na fronteira entre os dois países, controlado por cartéis organizados, armados e violentos. O tema já foi retratado em diversas ficções e documentários, mas raras empreitadas cinematográficas tiveram tanta coragem e enfrentaram o tema de modo tão frontal quanto Cartel Land, de Matthew Heineman.Ao invés de se concentrar em questões morais (a criminalização do consumo de drogas) ou legais (a punição adequada aos crimes cometidos), o cineasta prefere se focar na política de combate aos cartéis, responsáveis pelo assassinato de diversos trabalhadores em vilarejos do México. A câmera está sempre nos locais certos, com as pessoas certas, acompanhando os produtores de metanfetamina enquanto fabricam seu produto, os justiceiros americanos e mexicanos bolando planos sanguinários contra os chefes do tráfico, a polícia de cada país tentando impedir o estouro da guerra civil.

Cartel Land é um documentário de longo alcance, fruto de um excelente trabalho de produção. O acesso às informações sigilosas é impressionante, além da postura ousada de recusar a voz oficial do governo, preferindo acompanhar os civis que se organizam para fazer justiça com as próprias mãos, e matar qualquer traficante que encontrarem pelo caminho. Alimentados pela descrença no papel do Estado, estes homens e mulheres acreditam no confronto direto como única possibilidade de solução dos conflitos.

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Heineman questiona o discurso de cada personagem, contrastando os pontos de vista militaristas, pacíficos, constitucionais e guerrilheiros. Ninguém é ridicularizado ou atacado: o filme faz questão de retratar com mesma atenção as reivindicações de cada peça deste complexo quebra-cabeça. O que poderia ser uma discussão cerebral sobre o tema torna-se uma jornada eletrizante graças à edição veloz, às cenas chocantes (cabeças cortadas, tiros, atentados) e ao realismo da filmagem. O cineasta situa-se literalmente no meio do tiroteio, dentro da sala onde as guerrilhas escolhem a sua próxima vítima, na parte interna do carro onde um cidadão é agredido por supostamente fazer parte de um cartel.

O filme combina dois aspectos importantes, opostos e de difícil convivência no cinema: o distanciamento necessário à reflexão e a imersão decorrente da urgência – tudo que franquias fictícias como Tropa de Elite sempre sonharam em conquistar, mas com o bônus do registro documental. Para coroar a façanha, as imagens de Cartel Land são belíssimas, com enquadramentos precisos e iluminação cuidadosa. Chega a ser inacreditável acompanhar a câmera de Heineman entrar na casa do líder de um cartel, junto dos homens que arrombam a porta e colocam uma arma em sua cabeça – tudo isso com o controle estético das melhores ficções.

É difícil formular qualquer solução ao problema, mas o filme cumpre seu papel ao semear dúvidas, perturbando o espectador tanto pelas emoções quanto pelo intelecto.

Enfim, se fosse possível premiar 2 filmes, Cartel Land também levaria uma estatueta para casa.

 

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Sobre o Autor

Esse sou eu. Carioca, jornalista, fotógrafo, filmmaker, DJ, de tudo um pouco. Apaixonado por natureza, música e qualquer tipo de arte. Sempre em busca de novas aventuras e desafios.

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