A ascensão dos festivais no Brasil

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Poucos países no mundo integram o conceito de celebração em sua identidade nacional como o Brasil. Aqui a festa tem diversas maneiras de acontecer: os quatro dias com as ruas lotadas no carnaval, os jogos de futebol da seleção brasileira, como na Copa do Mundo de 2014, que transformam dias normais em feriados, festas religiosas e populares de cultura que movimentam facilmente centenas de milhares de brasileiros em todo o país, entre outras.

A verdade é que os brasileiros não precisam de muitas desculpas para curtir uma festa. Comemorar está profundamente enraizado na personalidade cultural brasileira. É, portanto, uma conclusão lógica que o Brasil tem uma cena de festival de música em brasa, embora não é o caso ainda. A cultura de festival de música no Brasil é relativamente nova e, especificamente, matizada, mas como os festivais locais aumentam e os internacionais chegam ao país, a cena vem crescendo e ganhando cada vez mais espaço.

Os festivais de música desempenharam um papel importante na circulação de ideias liberais durante os anos de 1960 e 1970, embora esses eventos, muitas vezes, acabavam em violência nas mãos dos militares, que temiam que as reuniões em massa de jovens brasileiros podiam significar a propagação de ideias perigosas. A primeira grande escala dos festivais de música no Brasil teve início no ano em que os militares saíram do poder. Foi o Rock In Rio, que reuniu mais de 1,5 milhões de fãs ao longo dos dez dias em janeiro de 1985. Com headliners internacionais, incluindo AC/DC, Rod Stewart e Yes, o evento abriu as portas do Brasil para o resto do mundo da música, levando a indústria local a um novo patamar de profissionalismo.

Os anos 90 viram uma população brasileira com sede de tudo que a cultura urbana poderia oferecer. A estabilização do sistema monetário no meio da década permitiu uma maior troca de ideias e estilos com artistas e marcas internacionais, e também gerou um aumento importante no poder de compra da população em geral. A virada do século viu o surgimento de muitos novos festivais que caracterizam estilos brasileiros de música. Tanto as grandes labels quanto a cena musical independente começaram a produzir festas de música eletrônica nas maiores cidades do Brasil. O gênero, e suas raves, foi bem recebido. Gradualmente, a cultura dos festivais de música se espalharam por toda a sociedade brasileira.

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São Paulo, a maior cidade da América do Sul, sediou o festival Skol Beats por quase uma década. O evento recebeu mais de 55.000 pessoas e foi o precursor para outros festivais de grande escala em todo o país. Suas nove edições demonstraram as dificuldades logísticas enfrentadas pelos grandes eventos que ocorrem em caóticos distritos urbanos. O festival terminou seu funcionamento em 2008, e em vez dos grandes eventos, festas menores e mais pessoais nasceram, florescendo o mercado em torno de São Paulo.

Alguns desses novos festivais começaram como pequenas reuniões para fãs de psytrance -um gênero popular no Brasil na década de 90- , e depois se transformaram em festivais conhecidos nacionalmente. XXXperience, Tribe e Kaballah são exemplos deste movimento, e agora estão todos mantidos em uma mesma região de São Paulo. Os lineups têm expandido para incluir mais gêneros. Em 2015, por exemplo, XXXperience e Kaballah trouxeram ícones da EDM incluindo Armin Van Buuren e Fedde Le Grand, bem como respeitados artistas underground como Mathew Jonson, Rodhad, e Danny Daze, e brasileiros, como Volkoder, Alok, e Victor Ruiz. Ocorrendo a cada dois anos, o Tribe irá retornar neste sábado, no Sirena, em Maresias.

No Sul do Brasil, o TribalTech teve uma trajetória semelhante como esses festivais psytrance. Originalmente como uma pequena rave, nos últimos 12 anos, o festival tem crescido e hoje é considerado um dos mais respeitados do país. Realizado em Curitiba no ano passado, o TribalTech foi distribuído em dois dias, com artistas incluindo Carl Craig, Dubfire, Roman Flugel e Chris Liebing. Recentemente nomeada uma das 13 cidades mais emergentes do mundo para a música eletrônica, Curitiba também abriga o Warung Day Festival, promovido pelo renomado club Warung de Itajaí.

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Além de São Paulo e do Sul do Brasil, outras regiões do país oferecem opções de festivais consolidados. No Rio de Janeiro, o Rio Music Carnival é uma maratona de cinco dias completamente focada em música eletrônica. A festa acontece na Marina da Glória e apresenta headliners de vários estilos. O evento, que será em fevereiro, trará estrelas internacionais, incluindo Hardwell, Axwell, Kolombo, bem como os fenômenos brasileiros Vintage Culture e Alok. Enquanto a cidade é famosa por suas atrações turísticas e as praias durante o dia, a vida noturna no Rio é muito forte.

Brasília, o distrito federal, foi um dos refúgios do rock brasileiro na década de 1980. Durante os anos 90, tornou-se também uma das cidades pioneiras de festas de música eletrônica. Hoje, o Federal Music é o maior festival local, e a próxima edição ocorre no próximo dia 31. Em edições passadas, já passaram por lá Nicky Romero, Dimitri Vegas & Like Mike, Kolombo, Romeo Blanco, e Sonny Fodera. Esse ano, a principal atração será o holandês Hardwell.

No Nordeste, o nome mais conhecido é, sem dúvidas, o Universo Paralello. Realizado desde 2000, o festival começou como uma festa de psytrance na véspera de Ano Novo na Chapada dos Veadeiros. Em 2003, mudou-se para a deslumbrante costa da Bahia, perto do local onde os primeiros colonos portugueses chegaram em 1500. O “UP”, como é conhecido, se tornou uma das maiores celebrações da cultura alternativa do país. O evento de uma semana hospeda um grande número de pessoas de todo o Brasil e do mundo, e inclui festas sem fim ao ar livre. Enquanto festivais de campismo não são populares no Brasil, as exceções são feitas para o Universo Parallelo.

UP

A história de eventos internacionais no Brasil começou mais recente e é um pouco irregular. Em 2015, tanto o Tomorrowland quanto o EDC chegaram no país. O Tomorrowland foi um enorme sucesso, embora o EDC sofreu o impacto de uma recessão que afetou a economia brasileira desde meados de 2015. O Sonar retornou em novembro do ano passado, depois de uma edição frustrante em 2012 e um cancelamento inesperado em 2013. Já o Ultra, um dormente festival no Brasil desde a sua última edição de 2008 em São Paulo, retorna ao país em outubro de 2016.

Enquanto o mercado está desenvolvendo o gosto pela música, o fato é que trazendo um evento internacional para o Brasil é complexo e caro. Os equipamentos usados são quase totalmente importados, e a taxa de câmbio tem um grande impacto na compra e manutenção. Isso reflete diretamente nos custos dos aluguéis. Além disso, há questões relacionadas com a qualificação dos funcionários, disponibilidade de maquinaria necessária, e além disso, um sistema fiscal que é extremamente burocrático e complicado.

Em meio aos altos e baixos de uma economia instável e os desafios da mistura de cultura tradicional com marcas mundiais, a cena dos festivais no Brasil têm a tendência de crescer e diversificar a médio e longo prazo.

Enfim, o que todos nós sabemos é que a energia positiva que o brasileiro tem é única. Isso é e sempre será um diferencial.

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Sobre o Autor

Esse sou eu. Carioca, jornalista, fotógrafo, filmmaker, DJ, de tudo um pouco. Apaixonado por natureza, música e qualquer tipo de arte. Sempre em busca de novas aventuras e desafios.

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