O fim da Era Simons na Dior

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Engana-se quem acha que a vida de um estilista é simples ou meramente fácil. Adicione um tanto de dificuldade (eufemisticamente falando) quando se trata de um diretor criativo de uma grande maison. São seis coleções por ano – duas de alta-Costura, duas de prêt-à-porter, cruise e resort – além de campanhas publicitárias, aparições pessoais, entrevistas, conceituação de perfumes, inaugurações de lojas, festas das marcas, exposições em museus, visitas globais, sem falar nas criações exclusivas para estrelas hollywoodianas. Será que qualquer estilista está capacitado para manter o ritmo? Ou melhor, será que todos estão preparados para enfrentá-lo?

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Alta-costura inverno 2013

 

Na última quinta-feira (22.10) o mundo da moda foi surpreendido com a notícia de que Raf Simons deixará a direção criativa da Dior. Até agora falamos do quanto estamos abalados com isso, mas será que pensamos no quanto Raf pode ter sido abalado mesmo que no curtíssimo período que permaneceu à frente da Maison?

Passaram-se três anos e meio desde que o belga assumiu o cargo em abril de 2012, quando foi encarregado da difícil missão de elaborar a coleção de alta-costura de inverno 2013 em apenas dois meses, logo após a saída perturbada de John Galliano (demitido por declarações antissemitas). Na maison, Raf fez um trabalho muitíssimo especial, marcante, brilhante… Um curto período que rendeu sucesso à Dior: sucesso financeiro – as vendas aumentaram 60% desde 2011, segundo a The Cut – e sucesso na memória.

Porque sim, há desfiles e looks memoráveis nesta trajetória. Sucesso de quem não se rendeu a fórmulas, de quem estudou cada centímetro, de quem fez cortes precisos, uma alfaiataria de tirar o fôlego e acessórios sucesso de vendas. Um estilista reconhecidamente inovador, contemporâneo, que superou seus próprios limites, escapou mas recriou direto da herança do fundador da marca e que convenceu o mundo que ele era a pessoa certa para assumir um dos postos mais prestigiados e cobiçados da indústria da moda. Mais que isso, que cativou o mundo!

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Cena: Dior e Eu

Isso graças também ao documentário ‘Dior e eu’, que estreou em agosto no Brasil e mostrou que Raf é um homem reticente, calmo, tímido, concentrado e que não perde o controle. Em uma das cenas mais marcantes do filme, o estilista é flagrado chorando momentos antes do desfile de estreia, cena que particularmente – e sem exageros ou fingimento – tanto me emocionou. E ao julgar pelo filme, dos cinco estilistas a comandar a marca depois da morte de Christian Dior em 1957, Simons era o que mais se parecia com ele.

Alta-costura verão 2014

 

A saída de Raf Simons, aparentemente, foi pacífica, a supor por seu comunicado divulgado na imprensa, pelo diretor executivo da Dior, Sidney Toledano:

“Após uma longa e cuidadosa reflexão, decidi deixar minha posição como Diretor Criativo de Coleções Femininas. É uma decisão baseada inteiramente em meu desejo de focar em outros interesses de minha vida, inclusive minha própria marca, e as paixões que me movem além do trabalho. Christian Dior é uma empresa extraordinária e foi um privilégio imenso ter tido a oportunidade de escrever algumas páginas deste livro magnífico. Gostaria de agradecer ao Sr. Bernard Arnault pela confiança que depositou em mim, dando-me a incrível oportunidade de trabalhar nesta bela casa rodeado pelo mais fantástico time com o qual alguém poderia sonhar. Também tive a sorte de, nos últimos anos, desfrutar da liderança de Sidney Toledano. Sua direção, sempre atenciosa, sincera e inspiradora, ficará como uma das experiências mais importantes de minha vida profissional”.

Segundo Cathy Horyn, na The Cut, tanto Toledano quanto Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH (do qual a Dior faz parte) já sabiam da decisão do estilista há meses, antes mesmo do último desfile de Raf para a Dior, apresentado na última semana de moda de Paris, no dia 2 de outubro.  Em resposta: “Bernard Arnault e Sidney Toledano respeitam a decisão de Raf Simons e agradecem de forma calorosa pela contribuição criativa excepcional que ofereceu à Maison Dior”.

Alta-costura inverno 2015

 

Entre tantas as dúvidas neste momento, o que será que quer dizer “Focar em outros interesses”? Será que são realmente paixões além da moda – sabe-se que ele é amante da arte – ou além do seu trabalho atual, mas ainda no mesmo universo? Vale lembrar, que o estilista belga possui sua marca própria que produz apenas coleções masculinas.

O site WWD diz que Simons é cotado para assumir a Calvin Klein, no lugar do brasileiro Francisco Costa. Corre em Paris que a explicação é que nenhuma das partes chegou a um consenso financeiro sobre a renovação contratual de Simons.

Será que aos 47 anos, ser o responsável pela direção criativa de umas das maisons de luxo mais famosas e bem sucedidas do mundo já não é tudo o que mais se deseja desta vida? Talvez não. Talvez, como disse a lendária crítica de moda Suzy Menkes, um desfile bem-sucedido nunca é suficiente. Talvez em meio a tantas obrigações, o estilista vire como um pássaro na gaiola. Talvez ter tudo – um círculo de assistentes, viagens incríveis de primeira classe, contato com as pessoas mais influentes do mundo, acesso a casas elegantes, amizade com celebridades, motorista particular e tantas outras coisas mais que se quer podemos enumerar – signifique não tem nada. Ou ter tudo, menos tempo para sí.

Verão 2016

 

O que eu penso sobre toda essa história e sobre os próximos capítulos que estão por vir é que agora admiro ainda mais Raf Simons. Afinal, como não dar toda sua admiração a quem teve coragem de dizer adeus ao que parece ser tão magnífico: o posto de diretor criativo da Dior? A quem teve “peito” para enfrentar mais uma vez o mercado fashion e dizer não a esse massacre. A quem nos deu esperança de que ainda há humanos reais que sabem dizer não. Só posso desejar: Boa sorte Raf!

Por Beatriz Arvatti

Fotos: Getty Images
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Sobre o Autor

Não me lembro quando foi que o universo da Moda me conquistou, as vezes eu acho que eu já nasci amando tudo isso. Hoje sou estudante de moda, mas não me peçam para desenhar ou costurar, meu negócio é escrever! Filmes antigos, anéis, Audrey Hepburn, botas, 90’s, sinceridade, bolo quente, livros, batom e assaltar o guarda-roupa da vó.

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