“Participantes apenas, não espectadores”: A Arte do Burning Man

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“So I called up a friend and I said: Let’s… let’s burn a man, Jerry.”

Diz-se por aí que é um evento. Apelidado de festival, a gente suspeita de que é mais um estado de espírito: feito acordar pra dentro – mais ou menos como devaneiam as testemunhas -. O Burning Man, nesse sentido, cheira mais a uma experiência, a uma aproximação – ou distanciamento – de si, do que se pensa ser. Ultrapassando a reunião de amantes da música – mas também justa e existente -, a trilha sonora nada mais é do que o requinte dessa histeria coletiva, desse transe. A música é de fundo. De raso, tem-se o inconsciente a céu aberto, a loucura sã, contaminada – contaminante – de sintonia mentes a fio.

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22 de Junho de 1986 foi a data histórica e inicial dessa aposta, que surgiu tão despretensiosa e espontânea quanto as pessoas que se aproximavam. Rezam as estórias que a clássica queima do boneco relaciona-se a um coração partido, a uma noite de bebedeira, de dança e amizade. O que se sabe, de fato, é que Larry Harvey e Jerry James foram os amigos fundadores desse momento, construindo a efígie desse homem que queimava nas areias de Baker Beach, praia da cidade de San Francisco, CA, criando quase um segundo e explosivo sol para esta Terra, conquistando – mesmo que sem querer – a atenção e a energia dos que por ali circulavam. Desde lá, ele se desfaz em fogo a cada ano. A queima é tida simbolicamente, então, como uma passagem, uma renascença e um recomeço – quase espiritual -. O próprio Harvey, em 1997, segundo registros disponíveis na história do site do festival, relembrou que o que começou em um número de doze pessoas triplicou subitamente, figurando desde o hippie que cantarolava com a sua guitarra uma canção sobre o fogo até a mulher que, embasbacada, segurava mãos alheias enquanto idolatrava o imenso clarão que fervia os olhos – e o coração. – Repentinamente, embora Harvey tenha afirmado, nesse mesmo registro, não ser um cara de celebrações, ele acreditou no ímpeto de que cantar junto àquele hippie era a coisa certa a fazer. E, então, seguindo a liberdade da intuição, todos estavam assim, cantando. Sem mais nem menos. Por que nem pra quê; nutrindo, instantaneamente, um encontro que eles chamaram de comunidade, diferentemente, ainda em suas palavras, de um evento de arte previamente arquitetado e calculado, enquadrado em uma galeria tendenciosa e de implicações reduzidas. O Burning Man, portanto, não foi criado. Criou-se. Autotrófica e organicamente. Porque ele é – ou costumava ser – maior do que os metros da efígie de madeira. Não há sala que suporte o que, hoje, somente um deserto sustenta. E, à medida que a população dessa viagem aumentava, o fogo ardia em metros cada vez maiores e surreais.

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Foto: I Hate Flash

Durante a última Segunda-Feira do mês de Agosto e a primeira de Setembro, coincidindo – será? – com o feriado do Dia do Trabalhos nos Estados Unidos, um meio do nada desértico recebe anualmente milhares de veteranos e novatos – quase 66.000 ano passado – na ânsia por esses oito dias da mais pura, instintiva e permitida expressão humana. Apesar de ser carinhosamente apelidado de Playa, não existe uma praia. Existe, desde 1991, uma cidade criada, em formato de meia-lua, para esse acontecimento, batizada de Black Rock Desert, NV, cuja inexistência é observada nos demais dias do ano. Sim. Exatamente. Ela não existe. Ela não possui vida até que mais um ciclo do Burning Man se refaça, ela inspira e expira somente por oito insanos dias, enquanto os trailers dos aventureiros permanecem estacionados com todos os suprimentos e acampamentos necessários à sobrevivência de cada um deles no festival, uma vez que a auto-suficiência constitui-se em um dos mandamentos do mesmo. Harvey foi o criador desses princípios, considerando a auto-expressão, a auto-confiança, o desapego financeiro, a limpeza e respeito ao ambiente, o envolvimento, a inclusão plena, o ato deliberado de presentear, a cooperação/colaboração criativa, o sentimento comunitário e o imediatismo (aqui e agora!) como essenciais aos participantes do Burning Man. No mais, ele é o que se deseja que seja, a ocorrência paralela e incessante das mais alucinadas e variadas atividades  durante essa semana é capaz de criar o que descreve a expressão fear of missing out, tão disseminada pelos frequentadores, que caracteriza o medo da indecisão e das escolhas – e da inércia -, considerando que ainda é impossível fazer-se presente em mais de uma posição ao mesmo tempo: cada escolha, uma renúncia. E como renunciar às seduções e aos estímulos do prazer imediato?

O Burning Man pode ser considerado, definitivamente, mesmo que não queira, um experimento social – e até psicológico -, capaz de despertar a curiosidade e a inquietação dos tantos estudiosos e desbravadores desses fenômenos. Apesar de ele não exigir formas de agir e de comportar-se em suas terras, defendendo o direito das escolhas subjetivas, é inevitável que, para que se sinta, no mínimo, confortável, você se desfaça de preceitos e bagagens inflexíveis e maniqueístas, entregando-se por entre antigos e novos limites de ser. Aceitando e respeitando, sobretudo, o universo alheio. A essência dessa vivência é a possibilidade de exploração máxima de/dos sentidos e da vida, permitindo e enaltecendo o desvio do padrão e da normalidade – pelo menos, a normalidade que sustenta a nossa cultura contemporânea ocidental -. Talvez, sejam esses dias um equilíbrio do desequilíbrio… E vice-versa.

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Há quem considere o evento uma aberração, uma anarquia e um defronte. Há quem concorde com o seu movimento de contra-cultura e há quem denuncie a sua “despersonalização”, criticando o seu contraditório modismo momentâneo, relembrando os bons e velhos tempos de um festival que não se relacionava às celebridades e à expressão de status. Há, ainda, quem o trate como religião. Fuga ou revolta. E há os que nada sabem: todos nós. Seja qual for o ângulo da narrativa ou da discussão, o Burning Man é inesgotável em definição, em linguagem e em vida. O que vale enfim é o que cada um faz dele.

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Sobre o Autor

Filha dos anos 90, estudante e amante de Psicologia, sangue e calor paraibanos. Socorro-me da alma pra (sobre)viver. Por isso escrevo. Por isso meus tantos eus e cás comigo...

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