Du E-Holic: O chapeleiro que encantou os fashionistas na SPFW

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A São Paulo Fashion Week acabou, mas as experiências que eu tive nesta temporada me renderam posts bem legais que eu não poderia deixar de compartilha-los. E muito mais do que os desfiles dentro e fora das passarelas, a SPFW sempre me proporciona encontros com pessoas que amam “o fazer” – tema da celebração dos 20 anos do evento – e que de alguma forma criam elos entre a moda, a educação, a cultura de nosso país e que, principalmente, constroem histórias e relações com pessoas.  A começar pelo chapeleiro que deu o que falar nesta edição. Confesso que durante toda a semana, entre o intervalo de um desfile e outro, me descobri no paraíso, mas especificamente na FFWShop – lojinha dentro da SPFW.

Du E-holic

Durval Sampaio poderia ser um paulistano comum, mas Du E-Holic é um chapeleiro sem CEP, que pertence ao mundo e respira sua paixão por chapéus. A bordo de um furgão 1952, Du passou os últimos três anos viajando pelo Brasil e outros países da América do Sul, em busca de inspiração. A maior companheira de jornada? Sua querida Singer. A máquina de costura, em cor acinzentada e personalizada pelos nomes escritos dos lugares por qual eles passaram e fotos 3×4 de seu pai e suas duas irmãs. A mãe, Dona Sonia, que esteve por perto durante toda a semana, revelou que não gosta de tirar fotos. Talvez por isso, não tenha uma dela lá.

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Em entrevista ao Explosive Box, Du E-Holic contou como surgiu essa paixão que veio muito antes da descoberta que ele possuía o dom de adornar a cabeça de muita gente pelo mundo e, principalmente, de levar alegria graças, não só as cores e estampas de cada tecido, mas também por sua simpatia e carisma que encantou uma infinidade de fashionistas durante a semana.

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EB: Como começou essa paixão por chapéus?

Du: Eu gosto de chapéu desde criança na verdade. Eu assistia um desenho que tinha referências de um rei que usava cartola e isso ficou na minha cabeça. E eu sempre gostei de criar, desde criança, mexer nas minhas roupas, mas nunca com chapéu. Ai quando eu tinha uns 23 anos mais ou menos, fui tentar comprar um, mas não achava o tamanho, só achava tamanho pequenos e só em cores básicas tipo preto bege e cinza. Até que um dia eu bordei uma touca que esticava e virou a paixão da minha vida, desde então eu nunca mais parei de tentar fazê-los. A primeira cartola, que era o meu sonho fazer uma, demorou uns 3 anos e só eu curtia ela na verdade. Ai desde então eu tô aprendendo a costurá-los assim. O que eu tento fazer é sempre uma variação de cartola, mexendo na aba ou no tamanho da copa.  O que eu curto mesmo é fazer as cartolas.

EB: Quanto tempo leva pra fazer cada cartola?

Du: Levam 2 horas pra fazer uma. Aqui, por exemplo, que eu tô fazendo no Fashion Week, demora um pouco mais porque tem a galera conversando.

EB: Cada chapéu é diferente do outro né?

Du: Sim, todos eles. A maioria deles, eu não tenho tecido pra fazer mais de um. E até hoje, eu já fiz uns 12 mil, em 10 anos. E cada um tem um nome e nenhum é igual o outro.

EB: Você anota todos esses nomes?

Du: Sim anoto todos e tiro foto de todos.

EB: Você teve uma loja, aqui em São Paulo, durante 3 anos isso?

Du: Isso, eu tive uma loja durante 3 anos na Fradique Coutinho, na vila Madalena. Eu fiquei 3 anos lá pra poder viajar outros 3. E eu voltei dessa viagem agora, há 20 dias mais ou menos.

Eb: Quando você abriu a loja?

Du: Eu abri em maio de 2010 e fechei em dezembro de 2012. Ai viajei em janeiro de 2013 e voltei agora.

EB: Por onde você andou esses tempos de viagem?

Du: Eu andei o Brasil todo e desde o Equador, eu fiz toda a América, costurando em mais de 40 mil quilômetros. Todos os estados brasileiros e Equador, Paraguai, Bolívia, Peru, Uruguai, Argentina, Guiana Francesa, Venezuela e colômbia.

Eb: E sempre fazendo os chapéus?

Du: Sempre costurando e me inspirando com cores. E nem todos os lugares eu conseguia chegar com minha máquina, porque nem todos os lugares tinha luz pra mim. Então eu fazia a mão.

EB: É essa a máquina que está sempre com você?

Du: Sim, foi ela que me acompanhou.  Aqui tem até o nome de alguns lugares escritos que eu parei pra costurar.

EB: Qual desses lugares desses 3 anos de viagem você mais gostou?

Du: Eu pirei na Bolívia e no Marajó, lá naquela ilha do Pará. Foram os dois lugares que me trouxeram ótimas referências inspiradoras. Uma em natureza e a outra na parte mais  antropológica, da vivência na montanha. É muito inspirador em relação a cor, a falta de cor, a dificuldades de criar em um lugar, a associação de cores que vem da época incaica deles.  É realmente de dar um parafuso na cabeça pra criatividade.

EB: Tudo te inspira então?

Du: Tudo. Eu respiro chapéu! Eu conheço você por causa do chapéu. O chapéu é muito mais do que um objeto pra mim. É minha conexão realmente. E não tem como desgrudar um minuto disso. É paixão fulminante, que bateu e ficou.  Eu olho pra sua blusa, por exemplo, e imagino um chapéu. Eu não consigo na verdade anestesiar a minha vida sem associar tudo ao chapéu. Mesmo não estando costurando eu estou, na verdade, me inspirando.

EB: E antes de você fazer, você já pensa exatamente o que quer ou deixa se levar pela inspiração?

Du: Não existe algo que não possa virar um chapéu. Eu faço com pneu, saco de cimento, saco de café, filtro de café, tudo que a máquina consegue costurar vira chapéu. Os recicláveis são os que eu mais curto fazer na verdade, eu acho muitos materiais, quando eu viajo também eu pego muito os sacos por ai e tudo vira um chapéu!

EB: Você faz croquis também ou simplesmente vem a ideia e você começa a costurar?

Du: Eu faço muita moulage. Eu gosto muito de fazer chapéus de feltro, e chapéu de voal, aqueles chapéus grandões e adornados. Dai acho que usa mais os croquis em relação ao tamanho, pra não se perder. Mas uma cartola como essa, eu já faço no olho. São 10 anos fazendo isso todos os dias, é tipo um toc costurar. Acaba virando um hábito.

EB: Quais são seus projetos para depois da São Paulo Fashion Week?

Du: Na verdade, agora eu vou pra casa da minha irmã, descansar daqui (risos). E em junho eu vou pra Bahia e em agosto eu vou dar role fora também, pra dar uma inspirada, costurar. Penso em ir pra Califórnia e de lá vou pra Alemanha. E eu quero voltar para o Pará de novo. Eu tô sempre por ai!

EB: Se quisermos te achar em uma loja, esse não é o momento então?

Du: Não, loja não dá mais. Eu prefiro ir a cada dia atrás das histórias do que esperá-las virem até a mim em um metro quadrado. Acho mais vantajoso, no sentindo de… pô eu tive 3 anos a loja, e não tinha sábado nem domingo. Acho que dá pra fazer diferente, dá pra curtir um pouco mais a vida. Até em relação a inspiração, é muito melhor você estar por ai do que tendo que buscar inspirações em um único espaço.

EB: Você cuida de tudo sozinho? Desde a criação até os cuidados com as redes sociais?

Du: Minha mãe faz tudo na verdade, menos chapéu! Eu só faço os chapéus (risos). Instagram também sou eu que cuido, mas quando dá na verdade. Eu não sou muito preso a isso. Até devia dar mais atenção, não consigo responder todas as mensagens. Mas quando dá eu acesso, mas quando não dá também eu não me obrigo a isso.

EB: Não dá tempo?

Du: Não, não dá. Mas eu nem quero esse tempo na real, se não você começa a responder e fica o dia inteiro preso a isso. E aqui (apontando para máquina de costura) é minha vida, só fico preso atrás dela.

EB: Tem um preferido desses 10 anos?

Du: Eu não tenho nenhum na verdade, porque se for se apegar a um só, você vai começar a se apegar a dois, depois a três… Igual mulher pra sapato entendeu? (risos). É melhor que você não tenha nenhum. Tem um que eu fiz antes de ontem pra vir pra cá (e já estava a venda), tem outro que eu fiz pra usar essa semana também e já vendi. Eu sempre desapego na verdade. E em relação a tudo, a roupa, a bens. Ao invés de ter eu prefiro fazer! Não tem porque eu me apegar ao amor por um chapéu se eu posso fazer outro. Eu prefiro cruzar com eles na rua.

 

Para encerrar, uma galeria de fotos (que estão lá no Facebook Du E-Holic) com os modelos que ele fez para a SPFW.

Quem quiser saber mais do trabalho do Du é só acessar as redes sociais dele.

Facebook: Du E-Holic 

Instagram: @dueholic

Youtube: Du E-holic

Site: http://www.e-holic.com.br/

Arrivederci, Beatriz Arvatti.

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Sobre o Autor

Não me lembro quando foi que o universo da Moda me conquistou, as vezes eu acho que eu já nasci amando tudo isso. Hoje sou estudante de moda, mas não me peçam para desenhar ou costurar, meu negócio é escrever! Filmes antigos, anéis, Audrey Hepburn, botas, 90’s, sinceridade, bolo quente, livros, batom e assaltar o guarda-roupa da vó.

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